10/13/2005

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[Foto by Oldmirror. Eslovénia.05]

O que daria por um minuto a mais de nós. Um minuto que seja de uma casa que foi nossa. De um descanso que partilhámos. De um entrelaçar de pernas que nos abriu uma janela de um futuro que afinal não existiu. Voltaria atrás, faria igual, faria diferente. O que daria para não ser o que sou, para não seres o que és, para sermos o que fomos, o que somos. Como as folhas caímos, como as flores e a cigarra vivemos. Mas existiremos para sempre. Seremos para sempre qualquer coisa que nos incomoda à flor da pele, que nos mantém as borboletas no estômago, que nos impede do sorriso aberto, que se esconde mas está presente sem que o consigamos tocar, olhar, dizer. Ultrapassar. (Oldmirror)

Que quer dizer a mágoa sempre que se deixa
fazer sentir, quando se afasta depois
de ocupar os únicos sítios? O que quero
dizer fica menos veloz. A evitar o azul branco
do céu sobre mim, a visitar esta terra só
de inverno. Seria inútil começar agora
uma conversa mais explícita, talvez
sobre o ritmo exigente da cidade em que estás
ou sobre a actividade quase perfeita das criança
sem redor. Prefiro calar-me, sentir o vento
que vem do mar, rir um pouco tropeçando
na madeira corroída.
De pouco serve escutar assim as vozes
já tão cansadas, antes a cuidadosa escolha
das tábuas a pôr na casa vazia. Depois
falaste-me de um eco, de um barco inclinando-se,
da casa que não tens.
Esgota-se o que mais falta. Que vamos
dizer? Está bem amo-te. E ao fogo
acabando na cinza, à manhã que não existe.

- Helder Moura Pereira

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1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

10/20/2005 03:22:00 da manhã  

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