5/24/2010

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Só subo à superfície para vos roubar um pouco de ar. Não demoro. Não incomodo. Prometo que nem sequer me detenho a olhar para vocês. Só vos peço que não me olhem também, nem me façam sentir o calor que transportam na pele à qual renunciei. Só subo à superfície para vos roubar um pouco de céu. É que a memória começa a fraquejar e é apenas com ela que sobrevivo deste lado de cá. (Oldmirror)

Morremos por estarmos a mais
e estar a mais é ir morrendo em cada dia
Estar a mais é não ser o que se é ou não pode ser
e ser a hesitação de quem perdeu o rumo
e gira em torno da sua própria ausência
(...)
Assim o homem é quem é e quem não é
e entre estes contrários a tensão é insustentável
o que se faz exceder-se e ser a mais
(...)
- António Ramos Rosa

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7/10/2005

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[Fotos on Nerve]

Decididamente, é a ti que amo. A procura deveria terminar aqui. (Oldmirror)

"Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo."

- António Ramos Rosa

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