9/18/2006

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Porque deixei de querer olhar as nuvens ou escutar o que o mar tem para me dizer. Abandonei o prazer de caminhar descalços na relva fresca de um Verão que já terminou. Troquei o gosto de um cigarro ou do silêncio da noite longa. Quero-me agora aqui. Será aqui que me sentirei em casa. Será aqui que viverei sem precisar de fugir ou procurar refúgio. Ficarei vazio para me voltar a encher deste pedaço de vida onde passei a existir, onde passei a morar, porque nunca morei, apenas habitei. Recusarei o sobressalto de ser feliz ou a felicidade que toquei levemente em cada folha que reli. Ficarei, existirei. Saberei apenas que existe o lugar onde estou, o lugar onde me deixo ficar; sentindo os dedos que me afagam, o conforto de um colo, o calor da pele macia e o cheiro que nada me cobra. (Oldmirror)

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos
Os teus ombros
reclamando
nenhum manto
Os teus seios
pressupondo
tantos pomos
O teu ventre
recolhendo
o relâmpago.

- David Mourão-Ferreira

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8/28/2006

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O pequeno rasgo na persiana vai deixando entrar a luz para dançar ao som do esguio fumo que me abandona desiludido por ter conhecido o que há bem lá no fundo do um corpo estendido, cansado, transpirado, esgotado depois de te ter procurado vezes sem conta. Depois de te ter conhecido bem lá no fundo do teu corpo estendido, desiludido, embrulhado na certeza de um silêncio que mais não diz que o fim. A luz e o fumo apaixonam-se indiferentes à falta de música que deixamos transparecer. A luz e o fumo entrelaçam-se, acariciam-se desafiando a vontade terrena que jaz aqui no chão onde dois corpos permanecem parados disfarçando a trevoada de sonhos que se vão agitando muito mais do que as ondas do mar também elas, como a luz e o fumo, enfeitiçadas pelas curvas da areia onde também os os corpos se chegaram a aconchegar. Respiro o ar que já não queres, guardando-o como se fosse esse o tesouro que descobriste para mim. Deixo-me estar, deixas-te estar. Em breve já não estaremos. (Oldmirror)

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

- David Mourão-Ferreira

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7/12/2005

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[Foto de Oldmirror]

Porque me foram oferecidos os teus sentimentos. Porque se os sentes assim, também eu os sinto. (Oldmirror)

I.

"É como se tivesses mãos ou garras
milhões de dedos braços infinitos
É como se tivesses também asas
libertas do minério dos sentidos
É como se nos píncaros pairasses
quando nas nossas veias é que vives
É como se te abrisses - ó terraço
rodeado de abutres e raízes -
sobre o perene pânico dos astros
sobre a constante insónia dos abismos
E é como se te abrisses e fechasses
sobre a antepalavra do Espírito
É como se morresses quando nasces
É como se nascesses quando expiras

II.

Ó claridade Ó vaga Ó luz Ó vento
que no sangue desvendas labirintos
Ó varanda no mar sempre Setembro
Ó dourada manhã sempre Domingo
Ó sereia nas dunas irrompendo
com as dunas e o mar se confundindo
Ó corpo de desperta adolescente
já no centro de incógnitos caminhos
que por fora te aceitas e por dentro
pões em dúvida o sol do teu fascínio
Ó dúvida que avanças mas por entre
volutas de pavor que vais cingindo
Ó altas labaredas Ó incêndio
Ó Musa a renascer das próprias cinzas

III.

Só tu a cada instante nos declaras
que renegas a voz de quem divide
Que a única verdade é haver almas
terrível impostura haver países
Que tanto tens das aves o desgarre
como o expectante frémito do tigre
tanto o céu indiviso que há nas águas
quanto o múltiplo fogo que há no trigo
Que és igual e diversa em toda a parte
Que és do próprio Universo o que o sublima
Que nasces que te apagas que renasces
em procura da límpida medida
Que reges o mais puro e o mais alto
do que Deus concedeu às nossas vidas"

- David Mourão Ferreira

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[ "Wheel of Salvation, India, 13thCentury"]

Cada segundo vencido torna-se para mim um pedaço de certeza de que apenas do zero será possível o reencontro do equilíbrio. (Oldmirror)

"Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos

Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos

É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando

E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos"

- David Mourão Ferreira

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