7/10/2009

334


Sei que me esperas, mas não sei porque espero. Os dias em que fazemos parentesis na vida deixam o sabor agridoce da chegada e da partida. Atraso-me. Fico parado sem escolher se o passo que darei me levará de novo a esse quarto ou a uma vida que abandono sempre que nele entro.
Não pára de ecoar em mim a frase do protagonista - “We are all empty houses, waiting for someone to open the lock and set us free...” - mas não consigo descobrir que fechadura espero ver aberta.
- Oldmirror (“the lock” – 15/09/07)
Não sei o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosseum estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.
- Fernando Pinto do Amaral

Etiquetas:

9/20/2007

214


É demasiado diferente o tempo que sentimos e o tempo que o relógio que seguramos no pulso direito nos mostra. É demasiado diferente o mundo que vamos conservando com a perícia de um antiquário e aquele que nos entra pelos pulmões sempre que abrimos a janela das traseiras, a única que nos liga umbilicalmente ao mundo fora das quatro paredes onde encerramos esta feroz guerra de mundos que travamos sabe-se lá porquê. Sabemos exactamente o que querem dizer aqueles que desabafam: "não sou deste mundo", "já não é do meu tempo". Sabemos que talvez não hesitassemos se um dia pudéssemos regressar aquele futuro que ficou perdido nos corredores dos mundos e dos tempos, sem que fossemos capazes de o resgatar. Talvez um dia, consigamos a coragem de acordar com o despertador do tempo sentido e nos possamos esquecer do tempo frio que trazemos agarrado ao corpo. Talvez um dia consigamos que os mundos que pisamos sejam os mundos que quisermos. (Oldmirror)
Jantáramos os dois pela primeira vez:
amizade ou amor, pouco interessava
desde que ali estivesses. O meu mundo
ia mudando à medida do teu,
a cada gesto vão da vã conversa
antes que fôssemos p'lo Bairro Alto
e enfim o Lumiar, a tua casa.
Eu podia contar uma história, dizer
como aquele rosto atravessava o meu -
mas não,
«nada de narrativas, nunca mais».
Apenas a certeza de estar morto
há tanto tempo, que já não me lembro
de cor nenhuma dos teus olhos. Não,
já não existe o dia nem a noite
e este silêncio deve ser talvez
a única resposta. É bem melhor
ficar à espera de que não regresses.
- Fernando Pinto do Amaral

Etiquetas:

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Oldmirror© 2005-2011 All Rights Reserved.