1/15/2010

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Sempre soubera que ondulando com a maré, mais tarde ou mais cedo, bateria contra a rochas. Mesmo assim não nunca hesitara. Lançou o corpo naquele carrossel e deixou-se levar na corrente. Sentia o sal entrar-lhe nas feridas, a espuma tomar-lhe conta dos olhos. As costas estavam frias, mas o sol aquecia-lhe o peito. Navegava olhando o céu e desenhando nas nuvens o pedaço de costa com que chocaria. Passaram-se minutos até que as ondas lhe ofereceram a rugosa pedra. A posição inverteu-se. Afundava-se, os olhos ja não fitavam o azul do céu e desfocado, o azul do mar ia escurecendo à medida que a profundidade chegava. Sempre soubera que ondulando com a maré, mais cedo ou mais tarde, bateria contra as rochas; sempre soubera que mergulhando naquele mar, mais tarde ou mais cedo, regressaria à superfície. Esperou. Deixou-se levar. Agora o corpo estava frio. Já não havia sol. (Oldmirror)

Estou apaixonada. E este amor vai decerto arrastar-me para longe. A corrente é demasiado forte, não tenho escolha possível... Posso acabar por perder tudo. Mas já não posso voltar atrás. Só posso deixar-me ir com a maré. Mesmo que comece a arder, mesmo que desapareça para sempre...
- Haruki Murakami

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6/14/2007

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"Segue-me à luz", pedira ela disposta a fazê-lo abandonar a noite onde há demasiado tempo se encerrara. "Fa-lo-ei, se vieres à escuridão dar-me a mão", respondera-lhe ele certo de que ela nunca aceitaria fechar os olhos e estender o braço. Ela fê-lo. Ofereceu-lhe, a mão, o braço, o corpo sem hesitar, sem saber sequer a quem se destinavam. Passaram-se demasiados Invernos, muitos Outonos, algumas Primaveras e poucos Verões. A noite passara a ser a morada, o local onde respirar fazia sentido. Chegara o momento. "Estou pronto, seguir-te-ei agora mesmo à luz que me quiseste dar", disse-lhe ele reconhecido. "Não, segui-te à escuridão, ficarei nela, prefiro-a agora", respondeu-lhe ela, decidida a nunca mais querer o dia. Ele sorriu, sentiu-se aliviado e ofereceu-lhe a mão, o braço, o corpo. (Oldmirror)

E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.
- Haruki Murakami

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