6/13/2011

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Aproxima-se a desistência. O corpo não dá mais e a vontade tem sido vencida pela parede erguida que impede a visão do horizonte. Aproxima-se a rendição. O corpo cravejado de investidas inglórias vai sangrando o pouco que resta sem que o olhar alcance qualquer praia. Demasiadas braçadas contra a corrente, sob uma água que teima em não dar tréguas, vai destruindo o mais férreo desejo de abraçar a areia que se afasta a cada tentativa de a alcançar. Sem forças, persiste mais forte a ideia de flutuar, de entregar à maré, de oferecer à corrente o destino e a praia em que nos queira largar. (Oldmirror)


Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.
- José Saramago

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6/19/2010

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Morreste sem que me convencesses. Espero ser convencido antes de morrer.
Se o for, dir-te-ei quando chegar. (Oldmirror)

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
- José Saramago

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