8/20/2010

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Porque existe solidão de ambos os lados da barricada erigida em redor do que somos, da protecção que procuramos, do medo de sermos vulneráveis. Porque o que mostramos é surpérfluo e cá dentro a aridez, se tomasse conta da paisagem, devastaria os sonhos que se aproximassem. Secos, pintados de azul; vazios, pintados de rosa; negros ou cinzentos para os escassos olhos que olham com o coração. (Oldmirror)

... e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta
– E agora?
sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue
– Já é tarde...
- António Lobo Antunes

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4/16/2007

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Ainda não, António, ainda não é tempo de te olhar nos olhos, nem tempo de te conhecer. Esperarei um pouco mais, esperarei para sempre sem nunca chegar o momento. Temo conhecer-te, temo que a sensação de vertigem sentida nos farrapos que te roubei seja a vertigem que me leve à confirmação do desencanto pessoal. Terás que esperar António, provavelmente, terás apenas a espera pois sinto que se um dia for chegado o dia, será o último daqueles que até agora fui conhecendo. Por isso tenho medo, pavor de ser e não ser aquele que julgo ser sem ainda te ter olhado nos olhos. (Oldmirror)

Não acreditava que um dia destes chegasse. E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé...
- A. Lobo Antunes

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10/22/2006

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Como me pude atrever? Como foi que acabei por prometer meras palavras se era o livro que devia oferecer? Desde o primeiro sopro em resposta ao meu respirar que as palavras se esgotaram, ficaram os sentidos, ainda por definir. Desde o primeiro sopro que sinto que as palavras que outrora me pertenciam dividem-se agora entre o que digo e o que sei que ouvirei. (Oldmirror)

Nem sombra nem luz
Nem sopro de estrela
Nem corpinhos nus
De anjos à janela
Nem asas de pombos
Nem algas no fundo
Nem olhos redondos
Espantados do mundo
Nem vozes na ilha
Nem chuva lá fora
Que eu não vou embora
- A. Lobo Antunes

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10/08/2005

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Tenho um amigo que deixou no fim de semana passado de ser lisboeta, ou aqui da "zona". Mudou-se para o Norte. O facto em si nao tem nada de relevante-mas tem este sinal de esperança: foi por amor que ele mudou. Enquanto houver um único ser humano que mude toda a sua vida por amor, vale a pena ter esperança.

- Pedro Rolo Duarte (DNA)

Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.

- António Lobo Antunes

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