11/13/2007

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Chegara ao fundo da rua como se tivesse chegado ao fim do Mundo. Chegara num passo lento e pesaroso, como se o fim da rua fosse o fim da vida, o beco sem saída onde apenas regressar para trás lhe parecia o mais provável. Parou. Olhou demoradamente o parede fria e indiferente. Sentou-se. Demorou uma nova vida sem desviar o olhar. Pela cabeça tudo lhe passou. Pela cabeça a insistente ideia de que aquela caminhada pela rua inclinada de onde sabia não haver saída antes mesmo do primeiro passo fora algo que decidira fazer numa desesperada tentativa de mudar o curso daqueles molhados e escorregadios paralelos. Sentia frio. Mas olhava a parede. Sentia que estava na hora de voltar as costas e caminhar de volta. Ao mesmo tempo sentia que poderia ali ficar para sempre, até que a parede passasse a ser apenas mais uma peça quase verdadeira de um dos seus sonhos que há muito começaram a ganhar vida própria a arriscarem a fuga para a realidade. Ouvia o tempo a esgotar-se, no entanto, não conseguia mover um músculo. Recordava o jogo que o arruinara, apostando sempre no vermelho enquanto só o preto surgia. Apostara tudo no vermelho com medo que se apostasse no preto a carta que mostraria o rosto fosse a anterior. Saiu derrotado. Agora frente à parede tinha decidido não sair da mesma forma, e assim não moveria um músculo. Deitou-se e de relance reparou no buraco de esgoto por onde corria a água que antes lhe precorrera o corpo. (Oldmirror)

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?
Eis a grande raiva!
Misturam-na com as rosas
e chamam-lhe vida.
- José Gomes Ferreira

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12/12/2006

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Olha para trás e caminha sem veres o que podes vir a encontrar. Fecha os olhos e segue em frente com o passo apressado. Fecha o coração e entrega-te a quem te reclamar. Não fales e conta a história da tua vida como se de um filme mudo se tratasse. Não ouças o que te dizem e aconselha-te a ti mesmo. Desiste sempre mas começa tudo de novo. Aposta e perde, ganharás novo fôlego. Morre, viverás como nunca. Escolhe um deles, não os sigas todos, correrás o risco de ser feliz. (Oldmirror)

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha, não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
-José Gomes Ferreira

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