4/19/2011

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Quando o carinho é evocado como o maior dos sentimentos, surge a certeza de que é o embaraço e até o desprezo que levam à evocação e não a nobreza que o adjectivo encerra por si só. (Oldmirror)

A noite deixou-me outra vez transtornada
lentamente a manhã se enche
de palavras que eu sei de certeza
que significavam alguma coisa, mas o quê?
que ontem significavam alguma coisa.
Andar é balançar sobre os pés,
vejo na rua os seres de sangue quente
que tiveram também a inexplicável coragem
de se levantarem
em vez de ficarem deitados.
Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.
Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.
- Judith Herzberg

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12/18/2009

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Há amores para sempre. Amores que não nos saem do peito mesmo depois de deixarem de ser amores. Amores que não são únicos. Amores a cores, a cheiros, a toques, a livros, palavras, poemas, prosas, filmes, peças, bailados, pessoas. Há poucos amores no meu peito, na minha memória, mas há demasiados amores eternos. E há um mais eterno do que os outros. Aquele que me fez ler a poesia mais luminosa, o único que sem dar por isso irradia azul celeste, que descreve a vida com tamanha felicidade mesmo quando de infelicidade se trata que quase obriga ao emocionado verter de lágrima. Há um amor desses eternos que gosta da vida e nos convence a gostar dela. Acho que até o mais soluçado choro intenso tem nele uma estranha luz de felicidade. Por isso é eterno. Por isso o sigo, por isso é nele que, por impulso, vou buscar um pouco de claridade. Há amores mais amores, amores que não o sendo, sempre o serão. Eu tenho alguns, .um. mais que os outros. (Oldmirror)

Tal como às vezes entramos num quarto, sem saber porquê,
e depois temos de voltar atrás seguindo o rasto da nossa intenção,
tal como conseguimos tirar uma coisa do armário sem tactear
e só depois de a agarrarmos ficamos a saber o que é,
tal como pegamos num embrulho para o levarmos a algum lado
e, ao sairmos, pensamos sempre com um susto
que somos leves de mais, tal como, enquanto esperamos,
nos apaixonamos uns minutos loucamente por uma cara nova,
mas somos afinal nós quem mais espera,
tal como sabemos: este lugar lembra-nos algo mas não sabemos o quê,
e nos ocorre um cheiro qualquer, em forma de recordação,
tal como sabemos de quem devemos desconfiar
e em quem podemos confiar, com quem nos podemos deitar,
é assim, acho, como os animais pensam, conhecem o caminho.
- Judith Herzberg

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7/12/2009

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Guardo os últimos segundos para que possa esperar até que a chave volte a entrar naquela porta que desgraçadamente continua a ter dois sentidos. O mais ínfimo pormenor entra em mim da mesma forma com que entramos um no outro quando o tempo pouco nos dizia, quando o tempo repousava na mesma cama onde deixamos uma vez mais o confuso suor do estarmos inteiros sabendo que partiremos de novo em breve. Olho-te muito porque muito não chega para acalmar dois corpos que se cruzam numa vida interrompida. Evito-te os olhos. Mostram-me o que recuso ver, mostram-me o que recusas mostrar. Demoras os movimentos, prolongas o momento, esperas que o tempo sossegue e que todos os caminhos nos levem de volta aos lençóis onde acabámos de deixar que a vida avançasse um pouco mais. Vou engolindo em seco com a mesma frequência com que a ideia de fracasso me passa pela cabeça, com a mesma frequência com que me lembro e me esqueço que depois da porta voltar a abrir-se, abre-se com ela a dimensão de uma vida a cores que me encandeia e me faz procurar desesperadamente por um novo quarto onde, a preto e branco, te volte a olhar.
- Oldmirror (“evito-te os olhos” – 21/09/07)
Há vício no meu olhar fixo
basta lançar a linha e logo serena
em mim o desassossego
os olhos repousam no flutuador, mas é mais
que repousar, é como se finalmente
estivesse livre para não sair do sítio,
e assim o meu olhar fica inerte - não espero
que o peixe morda - fixo
o momento. Não preciso de nada não preciso
de olhar. Concentro-me nas rugas à superfície
não me esforço em penetrar até ao fundo.
Indiferente ao que possa aparecer, desaparecer
por cima ou por baixo de mim, indiferente
ao que foi e indiferente ao que está para vir.
As cores lisas a brilhar à tona da água
já são acontecimentos a mais
e vejam, eis o primeiro círculo
de algo que caiu na água ao longe.
Nada melhor do que não fazer nada,
do que não me mexer. Até um mínimo
erguer de olhos perturba irremediavelmente a ordem
e faz acontecer, faz acontecer.
- Judith Herzberg

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