6/17/2010

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Vou fechar os olhos e contar lentamente até dez milhões. Quando os abrir espero finalmente ver. (Oldmirror)

Ela volta a fechar os olhos; as palavras não atravessam o seu sonho. Esse sonho pesado onde borbulha um sangue violáceo e que eu não posso sonhar. Não. Não voltes a adormecer. Acorda já, acorda para sempre. Ela abriu os olhos, abriu os lábios, estava de novo perto de mim e eu não soube guardá-la. Era preciso penetrar à força e em cheio no seu coração, rasgar os nevoeiros, e obrigá-la a escutar-me, suplicar-lhe: permanece viva, volta para mim. Volta; ainda ontem era tão fácil. As mãos pousadas no volante, olhavas o céu, dizias: que bela noite. Uma noite demasiado bela, tão suave. Sorrias: voltarei. Nunca mais voltarei a ver o teu sorriso. Dir-se-ia que o seu lábio se tornou demasiado curto, aparecem-lhe os dentes e tem as narinas comprimidas; na sua carne viva, há já um cadáver que se modela. É preciso fechar os olhos, esquecer esta máscara de morte; amanhã já não serei capaz, já só verei a máscara. «Voltarei.» Deveria ter lançado os braços à tua volta e não os abrir mais: não te vás embora; amo-te, fica comigo. Ouviste estas palavras e partiste; eu deveria tê-las gritado mais alto. Amo-te. Agora eu falo e tu não ouves. Escutavas-me tão apaixonadamente: e eu calava-me. Será que não voltaremos nunca para trás, em nenhuma vida? Ela está ali tão próxima (...)

- Simone de Beauvoir

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10/06/2005

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[Foto by Oldmirror. Pisa.04]

Não te deixarei morrer em mim. Não deixarei que saias de mim. Impedirei a despedida mesmo que ela já tenha sido feita. Guardar-te-ei aqui apesar de aqui não morares. Escolhi escolher-te e isso não posso mudar. (Oldmirror)

Estendeste-me a mão e disseste-me com a cabeça baixa: «Adeus, peço-lhe desculpa» e senti nos meus braços uma grande vontade de te puxar para mim, de te apertar contra o meu coração; nos meus braços, o gesto parecia tão fácil: fácil de fazer, e fácil de desfazer, um gesto transparente e exactamente igual a si próprio. Mas deixei os braços caídos ao longo do meu corpo. Um gesto, e Jacques está morto. Um gesto, e qualquer coisa de novo aparece no mundo, qualquer coisa que eu criei e se desenvolve fora de mim, sem mim, arrastando atrás de si imprevisíveis avalanches. «Ele apertou-me nos braços.» Sentia já nos teus olhos a minha cara que me escapava; que se tornara já no teu coração o acontecimento opaco com que eu acabava de carregar o teu passado. Apertei a tua mão com indiferença; deixei-te ir embora sozinha pelas ruas em festa; ias a chorar mas eu não sabia. E fui-me embora, pelo meu lado, julgando-me também sozinho e acariciando a meu modo um vago remorso. Como se todos esses beijos que não te dei não nos tivessem prendido um ao outro com tanta força como os abraços mais ardentes; com tanta força como esses beijos que já não voltarei a dar-te, como essas palavras que nunca mais te direi e que me ligam a ti para sempre, tu, meu único amor.

- Simone de Beauvoir

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