5/09/2011

416



PARTE I
Um dia disse-lhe:
- Vou embora por uns tempos e quando voltar decidirei se irás morrer.

Desde esse dia nunca mais viveu. Passou os dias à espera que voltasse para saber se morreria ou não. Todos os dias, sentava-se à soleira da porta à espera de ver o vulto que significaria o veredicto final. Poucas vezes se lembrava do resto, poucas vezes entrava em casa para comer, beber ou simplesmente descansar o corpo. Os seus dias eram passados naquela soleira, à espera. Desde que ouvira aquela sentença a sua cabeça não mais pensou noutra coisa que não fosse... a chegada. Os mais diferentes cenários eram o passatempo: virá hoje? virá um dia? morrerei? viverei?
Foram anos e anos passados na soleira e o vulto nunca surgira ao fundo da estrada. Foram anos e anos até se convencer que, se calhar, o veredicto nunca chegaria e que por isso, viveria. Mas enquanto esperou, os anos passaram e pouco lhe restava para viver.
E no momento da morte o último pensamento foi para o vulto. Talvez naquela frase e na falta de resposta estivesse a própria sentença: morrerás da tortura de não saberes se morres ou vives. Dificilmente se lembraria de uma morte tão dolorosa.
- Oldmirror

Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
Quantos Césares fui!
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
- Álvaro de Campos

Etiquetas:

4/24/2007

199


Seriam precisas demasiadas tempestades para que voltasse ao mar. Seriam precisas demasiadas marés para que deixasse que o vento afagasse de novo as velas que já recolhi. Já me esqueci do sabor do sal que me habitava o corpo. Já me esqueci da dança das ondas que embalavam o rumo que traçei. Já não oiço os pássaros que me acompanhavam à chegada. Não há faina nem passeio. Seriam precisos novos mapas para que o destino não fosse este porto onde o tempo tarda em chegar, onde o abrigo não parece existir, onde o fim não me deixa sonhar. (Oldmirror)
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
- Álvaro de Campos

Etiquetas:

10/04/2006

142



Instala-se a dúvida no leitor. Tapar os olhos com as mãos é a mais forte possibilidade uma vez que por entre os dedos há sempre um olhar discreto e pouco comprometedor. A fuga sem regresso é uma solução colocada de imediato, no entanto, ficará a dúvida sobre as palavras, ficará a memória presa na imagem, insistirá a curiosidade para que voltemos ao lugar escuro e fumarento tentando descobrir a banda sonora de tamanho arrojo, de inesperado atrevimento. Procuramos, sem êxito, direccionar a atenção para o texto. Procuramos nas entrelinhas a chave que abrirá a gaveta das respostas. Uma gota de suor vai escorrendo pela testa misturando-se com uma gota de desejo que percorre o sentido contrário. Não vemos nada, não descobrimos nada. Recuperamos o olhar na imagem e nas palavras. Aumentam as suspeitas: loucura, perversidade. Lemos de novo. Olhamos de novo. Desistimos por hoje sem saber se voltaremos. Estamos deitados, a insónia apodera-se do corpo e a mente regressa ao quebra-cabeças. Olhamos para o lado. Outro corpo dorme. Admiramo-lo sem barulhos. Talvez a resposta esteja ali. Fazendo-o, não lendo-o, não vendo-o. (Oldmirror)

...Uma erecção abstracta e indirecta no fundo da minha alma.
...Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstracto do corpo fazendo maelstrons na alma...
...Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!
Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doida de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!
Não quero intervalos no mundo!


- Álvaro de Campos

Etiquetas:

Estou no blog.com.pt - comunidade de bloggers em língua portuguesa
Oldmirror© 2005-2011 All Rights Reserved.