2/23/2007

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[Tom Stoddart.06 perfumed by Jasmim]

Passaram a ser higiénicos mas nunca deixaram que regressar à lama nem que fosse por uns momentos. Não descobriram em qual dos lados eram mais felizes. Sabiam no entanto que o que os deixava satisfeitos era poderem lavar-se para depois se sujarem, muito mais do que sujarem-se para depois se lavarem. Afinal tinham mudado bem menos do que poderiam imaginar. (Oldmirror)

O que é a loucura?
É a base de todas as paisagens.
.
- Mário Cesariny

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11/30/2006

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Olhar para baixo, olhar para cima, escolher o destino, decidir o passo. Sentir o vento, antecipar a água, abrir os braços. Tentar voar, mergulhar, passar um minuto na eternidade da descida, abdicar das defesas. Saltar de olhos abertos, saltar mais fundo na vida, descer vertiginosamente na vontade de ficar. Deixar correr os sangue no corpo, suster a respiração, romper o espaço, furar o ar. Trocar o ar pelo mar, trocar o certo pelo incerto, trocar. Cair. (Oldmirror)

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo
a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim
esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier
hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere.
Talvez apareça

- Mário Cesariny

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11/26/2006

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Miguel Gonçalves Mendes — O Mário tem medo da morte?
Mário Cesariny — Sou capaz de ter, um bocadinho. Não sei o que é. (ri). Mas gostava de ter daquelas mortes boas... a gente deita-se para dormir e nunca mais acorda, isso é que é bom.Mas tenho medo sobretudo da degradação física, isso sim! Porque eu já sofro um bocadinho, vá lá, isso é que é muito chato, isso já é a morte a trabalhar, a trabalhar. A morte propriamente não existe. Se morreu, morreu... é o momento! Tens medo da morte tu?

- verso de autografia / mário cesariny /assírio & alvim

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8/17/2005

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Na tentativa inglória de me entender, luto com a vontade de te ter e não te ter. Na tentativa desesperada de encontrar o caminho, sofro porque te deixei ir sem que um abraço impedisse que fosses. Preferi lutar comigo mesmo, preferi o eterno conflito interno que me diz quero e não quero. (Oldmirror)

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nissonão faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
- Mário Cesariny

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8/10/2005

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Há 82 anos que existes. Há 82 anos que fazem questão de te esquecer. Mas nunca nos deixaste sem uma palavra, não o querias, eu sei; mas mesmo assim roubamos-tas, são nossas também. Sabes, és bem mais que palavras e carne, sabes que também és emoções, sentimentos. Há 82 anos que nos ensinas a sentir melhor. Eles que esqueçam, nós cá estaremos para continuarmos a roubar-te. (Oldmirror)

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que seia não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdadea machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal
- Mário Cesariny

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